A realização dos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro em 2016 é uma grande oportunidade para o Brasil, mas também um enorme desafio. Na última semana relatei sobre a dificuldade que o esporte adaptado teve para aparecer na televisão brasileira, mas fazer do paradesporto uma alternativa interessante de lazer, é mais do que um desejo, é uma questão de honra.
Em 2008, Pequim surpreendeu ao lotar os ginásios e praças esportivas, fazendo com que os atletas paralímpicos percebessem a importância que eles têm para o esporte. Londres foi ainda mais surpreendente. A realização de um cerimonial de abertura digno do berço do Esporte Adaptado, com diversas apresentações artísticas protagonizadas por pessoas com deficiência, calou todos os críticos. As últimas duas edições dos Jogos Paralímpico desafiam o Brasil a fazer algo ainda mais surpreendente.
Apesar de o Brasil ser considerado uma das maiores potências mundiais no paradesporto, a cultura do esporte adaptado no Brasil não condiz com os resultados conquistados. Nos EUA e Canadá, modalidades como Basquetebol em Cadeira de Rodas são transmitida ao vivo em canal aberto, fato que no Brasil parece apenas uma utopia. Em nosso país, as pessoas que ficam em uma condição de deficiência são submetidas a diversos tratamentos ilusórios que alimentam uma esperança de cura, arrancam o máximo de dinheiro possível de seus pacientes e comprometendo uma reabilitação eficiente preocupada com sua nova condição. Os programas de reabilitação em países como EUA, Canadá, Inglaterra e Austrália tem como carro chefe o ESPORTE, no Brasil ficam anos confinados, perdendo força muscular e comprometendo sua condição de saúde, surgem doenças cardíacas e circulatórias decorrentes da falta de atividade física. Talvez isso ocorra pelo fato das pessoas não serem direcionadas a esse tipo de atendimento, ou simplesmente por não conhecerem essa possibilidade.
Para superar a expectativa de público nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016, o Brasil terá que investir ainda mais em programas de promoção do esporte adaptado, possibilitando que a grande massa entenda como essas modalidades funcionam e o quanto elas podem ser competitivas. O mesmo desafio que o Brasil enfrenta com relação aos Jogos Paralímpicos, as cidades de Joaçaba, Herval d’Oeste e Luzerna enfrentarão no mês de outubro desse ano, quando serão sede dos Jogos Abertos Paradesportivos de Santa Catarina – PARAJASC assunto da próxima semana.
Comprando para doar
As pessoas me perguntam: O que é T54? Porque aquele técnico tirou seu melhor jogador de quadra? Como pode pessoas sem braços competir com quem só tem lesão nos membros inferiores? Essas perguntas exigem explicações mais detalhas que muitas vezes as pessoas têm dificuldade para compreender. A participação da mídia nesse processo de transmissão de conhecimentos fundamentais para compreensão do esporte adaptado é determinante para o crescimento dessas modalidades.
Se não bastasse a complexidade do esporte adaptado, a imagem impactante de uma pessoa com deficiência física superando os limites que a sociedade instalou sobre ela, foi por muito tempo, evitada pela televisão brasileira. As pessoas com algum tipo de deficiência eram ignoradas pela sociedade. Os discursos carregados de preconceito e discriminação, faziam das pessoas com deficiência seres extraterrestres, ou seja, lançadas a própria sorte. No ano de 1980 a Rússia se recusou a realizar os Jogos Paralímpicos dizendo que naquele país não havia pessoas nessas condições. Segundo o ator Marcos Frota, a Rede Globo realizou uma pesquisa que apontavam que a maioria da população brasileira rejeitava assuntos relacionados a essa temática, até que a novela América em 2005, onde o referido ator fazia o personagem Jatobá (cego) mudou essa realidade. A partir de então, as pessoas com deficiência começaram a aparecer com mais freqüência, e as campanhas por igualdade e acessibilidade passaram a ser mais intensas.
No esporte paraolímpico não foi diferente. Os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos normalmente resultam em grandes investimentos financeiros entre as redes de televisão. O mesmo não ocorria com o esporte adaptado, basta dizer que nos Jogos Paralímpicos de Sydnei (2000) e Atenas (2004), os direitos de transmissão foram comprados pelo próprio Comitê Paralímpico Brasileiro e gratuitamente cedido para emissora que apresentasse a proposta mais interessante. Por outro lado, a falta de conhecimento dos narradores e comentaristas muitas vezes não possibilitou ao telespectador o entendimento da modalidade transmitida. No último mundial de paratletismo realizado em Julho, na França, os comentaristas da SPORTV 3 demonstraram estar muito mais preparados para falar e explicar o esporte adaptado para os telespectadores.
O excelente trabalho realizado pelo Comitê Organizador das Paralimpíadas de Pequim (2008), resultou na lotação dos espaços de competição, que foi surpreendentemente superado em Londres (2012). Tal acontecimento aumenta ainda mais a responsabilidade do Comitê Organizador do Rio 2016, assunto que será abordado no próximo texto.
Quanto mais, melhor
Uma iniciativa para equiparar as deficiências dentro do esporte adaptado revolucionou um sistema que até então era restritamente médico e impedia a participação de pessoas que não se enquadravam em um padrão de deficiência física. O professor Horst Stronkhendl fez do Basquetebol em Cadeira de Rodas a modalidade mais equilibrada em condições de competição e sua proposta passou a ser utilizada em outras modalidades paraolímpicas.
Com o modelo de Classificação Funcional implantado no Basquetebol em Cadeira de Rodas, pessoas com tetraplegia não apresentavam condições suficientes para participar da modalidade. O número cada vez mais crescente de pessoas com lesões medulares na região cervical, com comprometimento dos movimentos de mãos e até mesmo de parte do braço fez com que fosse criada uma adaptação a uma das modalidades mais difundidas no mundo, o Rugby. O Rugby em cadeira de rodas foi criado para atender as pessoas com lesões medulares que não conseguiam participar ativamente, de forma competitiva do Basquete em Cadeira de Rodas. Stronkhendl foi uma das pessoas que mais contribuiu para desenvolver um sistema de Classificação Funcional para essa modalidade que de modo geral atende pessoas com tetraplegia ou possui lesões que se equivalem a tetraplegia.
O modelo de divisão em grupos por graus de deficiência semelhantes ganhava cada vez mais prestigio e chamava a atenção dos profissionais que promoviam o esporte adaptado. Na modalidade de atletismo surgiam praticantes com todo tipo de patologia. A realização de competições dessa modalidade tornou-se cada vez mais difícil de serem realizadas. O princípio do Volume de Ação utilizado no Basquetebol em Cadeira de Rodas e Rugby em Cadeira de Rodas, se aplicado no atletismo, poderia reduzir significativamente o número de categorias, aumentando a competitividade e até mesmo equiparando de uma maneira mais coerente os diferentes tipos de deficiência. Para que isso fosse possível, foi estudado o movimento que cada prova exigia, e identificado a forma como que a lesão (deficiência) comprometia a execução desse movimento. O sistema também foi utilizado na natação, com o mesmo princípio. Atualmente, todas as modalidades de esporte adaptado possuem um sistema próprio de Classificação Funcional e o mesmo faz parte das próprias regras do paradesporto.
As competições de esporte adaptado vêm se tornando cada dia mais emocionantes e interessantes, mas a dificuldade em compreender as classes funcionais e o grande número de provas em modalidades individuais como Natação e Atletismo, fazem com que paradesporto a mídia, em especial a televisiva, tenha dificuldades para transmitir esses eventos. Na próxima semana abordarei a participação da mídia nos eventos paraolímpicos.
Todos Jogam
No texto anterior falei sobre o surgimento do esporte adaptado, utilizado pelo Dr. Ludwig Guttmann como método de reabilitação para soltados feridos na Segunda Guerra Mundial. O desejo de incluir todos os níveis de lesões medulares resultou na criação de um sistema de divisão em categorias que mais tarde passou a ser chamado de Classificação Funcional.
O sistema de Classificação Funcional, foi criado pelo professor de Educação Física Horst Stronkhendl em sua tese de Doutorado no ano de 1984. Com o crescimento do esporte adaptado e a criação dos Jogos Paralímpicos de Verão, a partir de 1960 em Roma, entendeu-se que o esporte era uma importante ferramenta para reabilitação e reintegração social de pessoas com deficiência. Além dos soldados feridos na guerra, pessoas com distrofia muscular, seqüelas de poliomielite (paralisia infantil), amputações, esclerose, má formações também buscaram no esporte uma alternativa de sucesso. Contudo o sistema de divisão por grau e tipo de deficiência se mostrou insuficiente para atender o universo de patologias dos atletas que surgiam nas competições. Percebeu-se que era impossível realizar competições, pois haviam muitas categorias e poucos atletas para cada uma delas, fazendo dos eventos, grandes festivais, onde poucos, ou talvez, nenhum participante ficava sem medalhas. Por outro lado, realizar eventos desse tipo estava ficando muito difícil.
A modalidade de Basquetebol enfrentava outra polêmica, os Estados Unidos da America defendiam a participação de pessoas com amputações de perna, e os Britânicos não aceitavam essa condição, pois entendiam que o Basquete em Cadeira de Rodas deveria ser praticado apenas por paraplégicos. O professor Stronkhendl elaborou uma proposta que ao invés de dividir por grau de deficiência, dividia os atletas pelos VOLUME DE AÇÃO, ou seja, pela forma como os atletas conseguiam realizar os movimentos, gestos técnicos da modalidade. Nesse modelo, cada atleta recebia um número, chamado de Classificação Funcional. Atletas que, na ausência de contração dos músculos do abdômen, não conseguiam girar para os lados eram considerados os mais comprometidos e recebiam a classificação 01 (conhecido como PONTO 1,0). Atletas que possuíam melhores graus de mobilidade, principalmente com o tronco, recebiam números maiores, sendo que os cmenos comprometidos (amputados abaixo do joelho) recebiam o Classificação Máxima, (4,5). Para possibilitar a participação de todos em um único jogo, estabeleceu-se um número máximo de 14 pontos, ou seja, a soma das classificações funcionais dos 05 (cinco) jogadores em quadra, não podia ser superior a 14.
Mais tarde o sistema de Stronkhendl foi utilizado de forma oficial (1988) e o mesmo princípio passou a ser implantado em outras modalidades esportivas. Na próxima semana estarei falando sobre como foi utilizado o sistema de Classificação Funcional em outras modalidades.
Um nova VIDA
É com grande satisfação que para as próximas semanas estarei escrevendo um pouco sobre minha grande paixão, o Esporte Adaptado. Nos último 07 (sete) anos, me dediquei inteiramente, junto com o professor Adão Cezar de Oliveira, ao desenvolvimento do esporte para pessoas com deficiência de Joaçaba e região. Tenho estudado muito sobre o assunto e protagonizado momentos inesquecíveis ao lado da atleta Aline dos Santos Rocha, campeã da São Silvestre 2013.
Para entender o Esporte Adaptado e/ou Esporte Paraolímpico é necessário voltar no tempo, quando ele foi criado, no intuito de reabilitar soldados mutilados da Segunda Guerra Mundial. A perseguição nazista aos judeus, fez com que o Dr. Ludwig Guttman, neurologista, fugisse da Alemanha para a Inglaterra. No ano de 1944 foi convidado pelo Governo Britânico para criar o Centro Nacional de Lesões na Coluna Vertebral no Hospital de Stoke Mondeville em Buckinghamshire. Nos primeiros trabalhos, Guttmann percebeu que 80% das pessoas com lesão medular morriam após alguns meses de tratamento. Para ele o esporte era um método importante de terapia para os militares feridos, ajudando-os a construir força física e auto-respeito. Um ano depois os pacientes de Guttmann já participavam de atividades esportivas adaptadas tendo como principais modalidades o Netball (Basquetebol jogado sem tabela, somente com o aro da cesta), lançamento de dardo e o arco e fecha.
No princípio, a preocupação de Guttmann era que o Esporte pudesse beneficiar o maior número de indivíduos, criando condições justas de competição. Esse desejo fez com que os técnicos em reabilitação fossem responsáveis por um sistema de classificação, dividindo os atletas em categorias de acordo com suas lesões. O sistema permitia que pessoas com tetraplegia (lesão que compromete movimentos das mãos, e que não conseguem movimentar as pernas e tronco) competisse apenas com atletas que tivessem a mesma condição física, o mesmo acontecia para pessoas com hemiplegia (paralisia de um lado do corpo), paraplegia (paralisia das pernas) e amputações. Mais tarde, o surgimento de indivíduos com deficiência física decorrentes de doenças ou condições semelhantes, fizeram com que o sistema de classificação sofresse alterações. Somente em 1984, o professor doutor em Educação Física Horst Strokhendl desenvolveu um sistema mais versátil que ficou conhecido como Classificação Funcional.
Na próxima semana estarei falando um pouco mais sobre o que é o sistema de Classificação Funcional no esporte adaptado, de forma a facilitar a compreensão de como funcionam as modalidades paraolímpicas.
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